ISSO É DISCIPULADO

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terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

INTEGRALIDADE DA MISSÃO



Por
Romildo Gurgel
MISSÃO

A missão tem como base toda a escritura sagrada, muito embora, a grande comissão de (Mateus 28:19-20) traduz uma forma direta, como um dos mandatos mais significativos de encarnar a vontade de Deus como instrumento reconciliador.  Em primeiro lugar, trata-se do último apelo convocativo do mestre aos seus discípulos, que podemos afirmar como um mandato de proclamação (kerigma) do evangelho de uma forma pedagógica e contínua até reproduzir discípulos reprodutores. Em segundo lugar, é uma chamada radical a todos os seus eleitos, não especialmente aos oficiais da igreja, mas a todos que são verdadeiramente seus seguidores que agradecem pela salvação seguindo-o participando da Sua missão de uma forma que o glorifique através de palavras, gestos, atitudes e ações.
Mateus relata ainda  em seu evangelho  uma "comissão menor" anterior a esta, menos abrangente, direcionada apenas para os doze, (cf. Mateus 10:5-42), geograficamente apenas para as "ovelhas perdidas da casa de Israel" cuja instrução é bem detalhada abrangendo: o foco da proclamação, o cuidado da aparência simples, o cuidado com o peso da bagagem, não serem exigentes quanto a dieta e a hospedagem, serem cuidadosos quanto a possíveis resistências, etc... é  aqui que o Senhor profere uma de suas mais famosas frases, "Não vim trazer a paz, mas a espada", isto devido ao contraste daquilo que ele encarnava, diferentemente das religiões da sua época.
Quanto aos resultados da proclamação desta comissão menor, são percebidos através das parábolas ensinadas por Jesus e por aquilo que sucedeu na história.  O endurecimento dos corações dos judeus, frente a salvação do seu messias, estava claramente declarado. O reino seria tomado e entregue a outros povos. Como por exemplo a parábola dos dois filhos de (Mateus 21:28-32), onde Jesus teceu a história de um homem que tinha dois filhos, chegando para o primeiro (judeus) pediu que fosse trabalhar na sua vinha, onde este prometeu ir, porém não foi. Por sua vez, chegou também para o segundo (gentios) fez o mesmo pedido, sendo que este respondeu que não queria trabalhar na vinha, mas depois arrependido do que disse, foi trabalhar. Jesus finaliza a parábola com estas palavras:
“Em verdade vos digo que publicanos e meretrizes vos precedem no reino de Deus. Porque João veio a vós outros no caminho da justiça, e não acreditastes nele; ao passo que publicanos e meretrizes creram” (vs.31-32).
Sequencialmente Jesus em outra parábola em (Mateus 21:33-46) parábola dos lavradores maus), precisamente aponta para esta transição de encargo missional. No entanto, esta segunda é bastante crucial em sua ênfase. Ele começa dizendo que um dono de uma casa plantou uma vinha, cercou-a com uma sebe, construiu um lagar, edificou uma torre e arrendou-a a uns lavradores (Judeus) ausentando-se subsequentemente deste país. Chegando ao tempo da colheita enviou alguns servos para receber os frutos do trabalho dos lavradores, sendo seriamente maltratados, espancados um a um levando alguns a falecerem por esses maus tratos. O dono da vinha enviando outros servos (profetas) foram tratados de igual modo.  Comovido pelo ocorrido e pela dureza dos arrendatários, decidiu enviar o seu próprio filho achando que por ser filho, eles iriam respeitá-lo e recebê-lo como deveriam receber. Mas os lavradores vendo-o disseram:  ‒ É o filho, matemo-lo porque esse é o herdeiro e nos apoderemos da herança. Assim procederam.
A conclusão da parábola está nos (vs.42-43) que diz:
“A pedra que os construtores rejeitaram, essa veio a ser a principal pedra angular; isso procede do Senhor, e é maravilhoso aos nossos olhos? Portanto vos digo que o reino de Deus vos será tirado e será entregue a um povo que lhe produza os respectivos frutos”.
Diante dessas passagens e suas incumbências à missão que Deus destinou para nós (gentios), a igreja tem a tarefa de trabalhar nesta lavoura na posição de serva obediente, comprometida em engajar-se trabalhando e ao mesmo tempo colhendo e cuidando dos frutos até que venha a prestação de contas quando o dono da casa pedir que apresente o relatório de sua administração.
A ação missional da igreja é diretamente proporcional a fidelização daquilo que ela proclama. (Barth, p.11) diz que não se pode saber sobre pregação, proclamação (kerigma) sem se tomar conhecimento sobre os sacramentos. Comenta ele que:
“Não há pregação se o sacramento não vier e esclarecer”.
Muito interessante esta forma dele enxergar a proclamação, penso que aqui ele está observando os dois lados de um caminho de mão dupla, conciliando o lado interno da proclamação e o lado externo, proclamação e discipulado.
Não há como pensar sobre missão sem que percebamos que exista uma associação ao cumprimento da proposta em cumpri-la através da igreja. Veja o que (Zwestsch, p.85)   escreveu em sua tese de doutorado sobre esse assunto:
“...Missão é um conceito atrelado à igreja cristã; serve aos seus ministérios ordenados e afins, que desenvolvem programa e criam projetos no intuito não só de manter, mas principalmente de expandir a igreja...”.
Seguindo essa mesma linha, de missão, igreja, não há como pensar sobre missão desassociando-se do exercício pastoral, da igreja e da comunidade em sua volta.
(Barro p.121-123), comentando sobre essa realidade, fala do exercício pastoral que peregrina em duas vertentes missionais que ele denomina como eclesiocentrismo ed intra (pastoral para dentro) e a eclesial ed extra (pastoral para fora). Ele traduz que a pastoral eclesial é aquela que vive para fora dela mesma, valoriza a missão do povo, do sacerdócio universal de todos os crentes, enquanto a pastoral eclesiocêntrica, refere-se apenas as atividades dentro da igreja.
Entendo que a missão da Igreja embarca dois lados, é tráfego de mão dupla, tem como base o vinde e o ide, é tanto interna, percebida como ambiente de reunião e preparação dos santos, como externa, mundo onde as pessoas são escravizadas pelo sistema corrupto pecaminoso. A missão interna é conectiva, agregadora e socializadora do reino, comunhão e o tudo em comum. A missão externa, é proclamação somada à ação de contextualizar a mensagem frente as realidades espirituais e sociais além de suas fronteiras, “se existir”. O apóstolo Paulo nos ajuda muito a entender essa parte escondida, como sendo uma forma intencional de empoderar os santos para a obra do ministério, conforme escreveu a igreja de Éfeso:
  (Efésios 4:11-13) – “Ele mesmo concedeu uns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas, e outros para pastores e mestres, com vistas ao aperfeiçoamento dos santos para o desempenho do seu serviço, para a edificação do corpo de Cristo, até que todos cheguemos à unidade da fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus, à perfeita varonilidade, à medida da estatura da plenitude de Cristo,”
Percebo que neste texto, os dons e ministérios possuem duas pautas, uma interna e outra externa: a) Interna - ‘pastores e mestres’. b)  externa ‘apóstolos, evangelistas e profetas’.
 É aqui do lado da pastoral eclesiocêntrica que acontece o diálogo da igreja consigo mesma, frente as realidades do contraste da vida comunitária que estão em volta dela. Como disse (Berkhof, citado por Devid Bosch, p.463):
“A igreja só pode ser missionária se seu estar-no-mundo é, concomitantemente, um ser-diferente-do-mundo”.
É aqui que aparece o caráter diferente transformador que contrasta com as comunidades não transformadas. É aqui em que há o encontro da fé onde não há sinalização de fé explícita e é nesse encontro que a missão acontece. É aqui que entra também a evidência dos dons e ministérios que foram distribuídos aos santos e a capacitação e o encorajamento missional floresce. É aqui onde o discipulado ganha a sua força e o treinamento se dá como aconteceu com o treinamento dado por Jesus aos seus discípulos, mesmo de uma forma desinstalada, artesanal e isolada (dentro).  É aqui que os corações são confrontados e encorajados a saírem da sua zona de conforto e perceberem que todos que são verdadeiros discípulos, são convocados a serem empoderados, através do (discipulado) do lado de dentro e frutificar para o lado de fora.
  Entendo ainda que assim como a queda veio através do desejo humano de comer o fruto proibido, a restauração do homem advém de uma contemplação do desejo de comer do fruto produzido por Deus. Porque a missão nasce pela proposta que contrasta, reino de Deus e mundo.
 Para efeito de ilustração, perceba na (figura 1) abaixo que a raiz de uma grande árvore é o alicerce de sustentação de toda arvore. Quanto mais a raiz se expandir e se aprofundar, maior será a probabilidade dela ser frondosa e cheia de frutos. Todo processo multiplicador sai do lado interno para o externo. Em outras palavras nossa missão é dá tempero a terra e iluminar o mundo (cf. Mateus 5:13-14).


                                                                                    Externo
                                                                                  (ad extra)
                                                                                   (Mt.5:13-16)









            (ad intra)
                                    (Efésios 4;11-13)            (figura 1)




A grande comissão tem como base a ação trinitária, no sentido de colocar todas as pessoas no Pai, no Filho e no Espírito Santo. A trindade incuba-se na ação transformadora do aumento e crescimento e desenvolvimento da lavoura, através da ação da igreja na proclamação pedagógica do evangelho. A abrangência do campo agora é bem maior: É o mundo todo, envolve todas as raças, tribos e nações em toda situação social em que as pessoas se encontram, devemos confirmar nossa obediência proclamando a redenção do Filho como herdeiro da lavoura e da casa.
Na grande comissão, Jesus não deu uma grande sugestão, mas uma grande “missão”, “remeter”, “enviar” que só pode ser obedecida desinstaladamente, informalmente, relacionalmente e permanentemente. Fomos chamados a “ir” e não somente a “vir” (Mateus 11:28).  Como sita (David Bosh, p.462 1952):
“A igreja é, sempre e ao mesmo tempo, chamada para fora do mundo e enviada para dentro do mundo”.
 Pelo menos duas vezes Jesus insiste enfatizar essa verdade: (João 20:21) - Jesus lhes disse mais uma vez: “A paz seja convosco! Assim como o Pai me enviou, Eu também vos envio.”
Deus nos chama para fora (ekkesia) e é Aquele que nos remete de volta para o mundo em missão. Somos desafiados a ver em cada passo da caminhada uma oportunidade para partilhar do amor de Deus revelada em Cristo. A melhor maneira de participar dessa vida é empregando-a em algo que tenha implicações eternas.
Todo discípulo é convocado por Jesus a erguer seus olhos para além de suas próprias fronteiras, compreendendo que o projeto divino de transformação inclui nossa participação e empenho, na abrangência não só comunitária, mas também em todas “as tribos, línguas, povos e nações” (Apocalipse 5:9). O Cristo que abraçou o mundo pelo seu amor (João 3:16), nos ordena a fazer o mesmo de maneira sábia, engajadora e responsável. Missão não pode ser divorciada da vida e do exemplo. O evangelho que pregamos deve ser encarnacional.  Jesus criticou duramente os fariseus exatamente por isso quando disse: “Portanto, tudo o que vos disserem, isso fazei e observai; mas não façais conforme as suas obras; porque dizem e não praticam” (Mateus 23:3).

INTEGRAL

O significado da palavra integral possui algumas definições. (Barro, p.2 unidade 2) diz:
“É o que compreende todos os aspectos ou todas as partes necessárias para estar completo: uma educação integral, uma reforma integral”.
Como a palavra integral tem a intenção de não deixar absolutamente nada de fora, continua ainda (Barro, p.2) definindo mostrando a dimensão dessa palavra:
“Que com outros elementos forma uma unidade ou conjunto: os órgãos integrais do corpo humano”.
É a partir dessa ideia que surge a missão integral, ou seja, a missão de Deus é integral, incorpora todas as coisas criadas visíveis e não visíveis.
A missão integral foi gerada no seio da fraternidade Teológica Latino-Americana a pelo menos pouco mais de 20 anos. Desde então a sua intenção tem sido colocar a Igreja dentro de um marco teológico mais bíblico do que o tradicional movimento missionário moderno (Padilla, p.13-14).
Escrevendo sobre a amplitude da missão integral aplicada ao reino de Deus, (Cunha, p.24-29) tece o seguinte comentário:
“Quando Deus criou todas as coisas, ele tinha propósito para todas as áreas da vida do homem e para a criação como um todo”.
Seguindo nesta linha, ele declara que Deus demonstra sua intenção de ter comunhão com o homem, de promover relacionamento entre as pessoas, de vê-lo se relacionando de forma correta com a natureza e de ter tudo caminhando dentro da ordem da própria criação.  Sua abordagem consiste em quatro aspectos das intenções de Deus na sua criação, envolvendo a área espiritual, relacional, físico e sabedoria. Tanto a queda como na restauração pela redenção de Jesus Cristo, essas quatro áreas da vida humana são integralizadas e recuperadas na restauração.
O apóstolo Paulo ajuda a essa ideia dizendo:
“... havendo por ele feito a paz pelo sangue da sua cruz, por meio dele reconciliasse consigo todas as coisas, tanto as que estão na terra, como as que estão nos céus” (Colossenses 1:20).
(Matthew Henry, Bíblia de estudo.p.1953), comentando este versículo diz:
“Deus por Cristo, reconciliou todas as coisas. Ele é o mediador da reconciliação que proporciona a paz e o perdão aos pecadores, que os traz a um estado de amizade e favor no presente, e levará todas as criaturas a uma gloriosa e bendita sociedade no final”.
(BARRO,  p.3 unidades 2), dá a sua definição de missão integral:
“Missão integral é a proclamação e manifestação (demonstração) do Evangelho do Reino de Deus em todas as dimensões da vida para restaurar (transformar) os relacionamentos corrompidos pelo pecado das pessoas com Deus, com elas mesmas, com seu meio ambiente e suas situações e realidades visando a glória de Deus”
            Sendo assim, nutrido com esse embasamento, acho suficiente em dizer que a integralidade da missão envolve toda a necessidade que os homens passaram a ter depois de sua queda, desde o afastamento de Deus, os sofrimentos em busca de seu próprio alimento, suas condições de abrigo, saúde, física, mental e espiritual e a recuperação integral ao estado de originalidade na criação tendo a igreja de Jesus Cristo como instrumento do cumprimento da missão integral na (missio Dei).


BIBLIOGRAFIA

1 BARRO, H. Jorge. Pastores Livres. 1ª Edição. Descoberta Editora Ltda. Londrina/PR. maio/2013. P.121-123.
2 – ZWETSCH, Roberto E. Missão como com-paixão, Por uma teologia da missão em perspectiva latino-americana. Editora Sonodal. 2008 p.85.
3.http://pt.wikipedia.org/wiki/Grande_Comiss%C3%A3o#Relatos_no_Novo_Testamento; Acessado em 17/11/2014.
4-http://hernandesdiaslopes.com.br/2012/04/a-grande-comissao-uma-missao-inacabada/#.UmaGTPk05_k; Acessado em 18/11/2014.
5-http://www.allaboutjesuschrist.org/portuguese/a-grandecomissao.htm#sthash.FrbHHPiV.dpuf. Acessado em 21/11/2014
6 – PADILLA, René C. O que é Missão Integral. 1ª Edição.Editora. Ultimato. Viçosa/MG. setembro 2009 p. 13,14.
7 – BARTH, Karl. A Proclamação do Evangelho. Editora Novo Século. p.11
8 – Bosh J. David . Missão Transformadora. Editora Sinodal. São Leopoldo/RS. 1998. p.446
9 – Bosh J. David . Missão Transformadora. Editora Sinodal. São Leopoldo/RS. 1998.p.449-450.
10 - Bosh J. David . Missão Transformadora. Editora Sinodal. São Leopoldo/RS. 1998.p.463.
11 – BÍBLIA. Bíblia Vida Nova- Editora Vida.
12 – Chave Bíblica – CBB.
13 – BÍBLIA. Bíblia de Estudo Matthew Henry. Edição Almeida Revista e Corrigida.1ª Edição. Rio de Janeiro/RJ:  Editora Central Gospel Ltda., 2014  P.1953.
14 – BARRO, J. H. Apostila do Curso Missão Integral. EAD-FTSA Pós-graudação.
15 – CUNHA. Maurício J.S; WOOD, Beth A. O reino entre nós, Transformação de Comunidades pelo Evangelho Integral. 3ª  Edição:  Viçosa/MG : Editora Ultimato. Abril 2009 . p. 24-29.



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