sexta-feira, 17 de julho de 2015

CONTEXTUALIZAÇÃO DO EVANGELHO E CULTURA

Por
Romildo Gurgel


O mandato imperativo de Jesus a sua Igreja, trata-se de um mandato cultural. Não há como se pensar em propagação do evangelho desconsiderando o contexto sócio cultural, político e econômico onde as pessoas construíram essa cultura. A propagação do evangelho na singularidade da missão da Igreja, deve rever em si, a missio dei, que é a intenção de Deus de estabelecer a comunhão com a humanidade uma vez perdida e restaurá-la ao estado de sua originalidade. Tratar da proclamação do evangelho mantendo o foco unicamente em salvação de almas, é ferir gravemente a intenção de Deus no seu propósito original antes da queda.
Com essa reflexão, a minha intenção consistirá em descrever alguns desafios extraídos de realidades atuais, frente ao que resultou da proclamação do evangelho em nossa cultura. Estarei mantendo esse foco não de uma forma ampla, mas descortinando a questão daquilo que deveria ser e ao mesmo tempo desafiando a uma contextualização mais sadia.  
Dentro da intenção original de Deus antes da queda, (Souza p.57) comenta que no livro de Gênesis, Deus incentiva o homem a produzir cultura na forma de permitir que ele institua atos, nomeie nomes, exerça tarefas, classifique e divida o tempo, invente modos de exercer domínio, etc. Dessa forma, uma cultura ou um comportamento instituído como: Santa ceia, batismo, ritos, liturgias, testemunho da fé, teologia, circuncisão, etc., podem ser inspirados por Deus, porém o modo e os meios de realização serão sempre uma decisão humana culturalmente influenciada, podendo diferenciar em diferentes locais.
A revelação bíblica como um bem a ser comunicado, acondiciona um mandato cultural sob diversos sentidos:
Não existe revelação sem mediação cultural – A medida que a revelação deixa de ser sentimento e torna-se linguagem simbólica, ela só assumirá identidade no mundo humano senão por meio dos recursos disponíveis no universo cultural na felicidade de ser compreendida, percebida para poder ser sentida. A crença só será veiculada por intermédio da cultura, intercâmbio dos fluxos. O Verbo, que era Deus, para revelar-se aos homens fez-se carne e manifestou-se culturalmente, trazendo o conhecimento da glória de Deus.  Podemos afirmar que a atitude de Jesus se integrava a cultura judaica e por algumas vezes Ele se colocava contra ela. Todas as vezes que ele percebia que se alguma prática cultural o privava ao acesso às pessoas, ele se permitia romper com os padrões culturais vigentes para a comunicação do seu Evangelho. Em outros casos, as práticas culturais que não passavam de atividades do cotidiano, e que não feriam o valor do evangelho, Jesus se adaptava sem nenhum problema. (Apostila p.73)
Pensando sobre o testemunho cristão, podemos levar em consideração que ele é tanto comunicação como expressão. Não haverá contato com o mundo sem um sistema simbólico inteligível que permita a circulação da informação, pois essas informações precisam ser percebidas linguisticamente e comportalmentemente. Ela tem que assumir uma língua, um gesto, ela assume a ética e a moral e nomeia regras.
A instituição de uma igreja, socialmente organizada, por mais simples que seja, é inquestionavelmente um processo de aculturação.  A Igreja ao instalar-se entre as cidades e nações não faz missão sem interagir com os padrões culturais existentes ali, ela ao mesmo tempo assimila, nega, transforma e assume tais padrões. A presença da Igreja no contexto cultural só acontece em processos de adaptação da revelação das escrituras ao mundo da cultura.
 Por outro lado, a fé cristã não pode encerrar-se em um gueto fechado, privado, como resultado final sem nada a dizer para o contexto do mundo. Pensar no cumprimento do mandato imperativo de Jesus, trata-se em afirmar o intercâmbio de três culturas: O das escrituras sagradas, a ideia central do editor, a do portador da mensagem e a daquele que recebe mensagem. Como David Hesselgrave descreve em seus estudos, afirmando que na proclamação do evangelho, estas três culturas se interceptam. Quanto ao conteúdo da mensagem, o importante consiste na fidelização do texto do editor, independentemente da linha teológica do proclamador. O fundamental é o que o texto na sua originalidade venha ser anunciado como realmente ele é e diz, sem que sofra alteração ao interpretá-lo para a cultura receptora. Como o fim da mensagem tem a tendência de afunilar-se na intenção da salvação de almas e subsequentemente a formação da comunidade eclesial, instituir regras e atos, nomear funções para exercícios de tarefas, classificar a divisão de tempo e uma certa forma de exercício de domínio, pode ajudar ou também inibir aquilo que o texto bíblico realmente quer dizer. Isto deveria acontecer de uma forma mais ampla e não unicamente só no âmbito institucional, denominacional.   Uma frase tecida por Leonardo Boff encaixa-se bem ao descrever o resultado da intenção do mensageiro, mensagem e receptor. Ele diz:
“O cano da água não é água e o que ilumina é a chama não a vela acesa” (BOOF, p.39).
              Com essas palavras, Boff está afirmando que Jesus não anunciou uma Igreja, ele anunciou o Reino de Deus e a transformação interior (conversão). Claro que a mensagem se confunde muito bem com aquele que a proclama e pelo seu resultado final. Porém, vale salientar que o proclamador é apenas o condutor da mensagem das verdades bíblicas, assim como a do cano é a de conduzir a água e a vela a chama acessa, muito embora seja inevitável este mescla-se do editor das escrituras com alguns traços inerentes na cultura do proclamado, que ainda por sua vez, trabalhará na contextualização da cultura receptora. Posteriormente, no seu lugar, surgiu a Igreja como comunidade de fieis que crê em Jesus e que expressa sua relação com Deus nesta nova cultura evangelizada.
Pensando nos resultados da proclamação, as comunidades de fé em Jesus Cristo deveriam em primeira mão, se preocupar em interpretar a mensagem bíblica ao invés de transmitir o evangelho aculturado da sua cultura.  Neste caso a cultura junto com certas tradições podem impedir o livre fluxo do evangelho ao mundo. Como o exemplo ocorrido no encontro de Pedro com Cornélio no livro de Atos 10:148;11-18 (apostila p.74). Para que Pedro rompesse com a tradição teológica judaica-cristã, Deus precisou interferir através de uma visão, onde o apóstolo deveria matar os animais e comê-los, gesto esse que na cultura judaica-cristã da sua época eram consideradas impuras e imundas. Já na casa de Cornélio, por sua vez, Deus se revelou fornecendo o endereço onde se encontrava o apóstolo para que ele fosse chamado para esclarecer pormenorizadamente acerca do reino de Deus. Cornélio como devoto a Deus, não teve problemas de enviar mensageiros a procura de Pedro, mas para Pedro, romper com a cultura teológica judaica-cristã que estava arraigado precisou ser quebrada, para que ele não resistisse em se hospedar na casa de um gentio. As lições aqui são muitas, mas a intenção de Deus, é que Pedro não deveriam ser impedidos de anunciar o evangelho em cultura que diferenciasse da dele, pois Deus deseja salvar toda a humanidade em diferentes culturas. Enfim, Pedro entendeu a visão. O texto ensina que o proclamador rompeu com as tradições teológicas instaladas em sua cultura com certa relutância, e o que resultou com este rompimento foi o mesmo que aconteceu na comunidade em Jerusalém. Deus derrama o seu Espírito tanto para Judeus como também para os gentios. Diante deste rico exemplo, o que se vê formado em muitas comunidades cristãs, é o demasiado zelo de uma certa tradição teológica, que isola as comunidades cristãs entre si e o mundo, comprometendo assim a missão da igreja de uma forma integral. No entanto, dentro do modus vivendi, cada igreja, deveria expressar aquilo que é comum à sua cultura sem que fira a originalidade da interpretação bíblica e evitar criar novos modelos de teologia que se transforme em uma possível tradição, principalmente aquilo que é bem comum nas relações entre outras igrejas, na sua comunidade já contextualizadas. As vezes se percebe que há um certo respeito, mas não suportamos o estar por perto. A verdade é que, as muitas interpretações bíblicas têm levado as comunidades se isolarem entre si, e criarem seus próprios grupos de forma que ao se multiplicarem levam consigo o seu próprio isolamento como forma de se proteger das outras comunidades eclesiais e também do mundo. Claro que os aspectos teológicos adotados como regra de normatização da fé e da comunidade, é defendida e muito bem defendida, com forte tendência a se manterem fechadas àquilo que poderia ser comum e saudável entre si e em outras comunidades. Isto explica a maneira onde muitas igrejas foram organizadas em nossa cultura, com um pouco de conteúdo de algumas já existentes e com um aspecto diferenciador das que já existem muitas outras são formadas perdendo o foco principal da proclamação, as almas perdidas, mas a criação de uma nova cultura eclesial que diferencie de outra também já instalada. Tal fato faz com que a construção teológica encontre sua pauta criando dogmáticas, que diferencie daquilo que Jesus mandou proclamar. A ênfase principal é na organização ao invés da proclamação de colocar as pessoas dentro da missio dei. Isto é um sério problema que precisa ser resolvido, e o resultado é a verdade bíblica mal interpretada do seu significado original. O que realmente deveria ser levado em conta, seria convergir em Cristo todas as coisas ao invés de haver disputas por almas, substituindo o evangelho pela cultura teológica, só assim estaríamos cumprindo a missão de Deus no mundo.
Sendo assim, o mandato cultural para a comunidade da fé, percebe-se como uma via de mão dupla, compreendida através das palavras de Jesus quando ele comissiona e chama sua igreja com essas palavras:
“Ide por todo mundo e pregai o evangelho a toda criatura” (Marcos 16:15a).
“Vinde a mim todos os que estais cansados e sobrecarregados e eu vos aliviarei, tomais sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração; e achareis descanso para as vossas almas” (Mateus 11:28-29).
O mandato cultural além de salvar as pessoas onde estão inseridas, envolve a vice-gerência desse homem sobre o cosmos. Era para o homem desenvolver e manter tudo aquilo que é criado por Deus. A igreja é a comunidade que está nesse movimento que vai e vem. O kerigma da igreja incorpora o mandato cultural que Deus entregou a humanidade em um relacionamento singular com a criação, para dominar e sujeitar (cf. Gênesis 1.28), guardar e cultivar (cf Gênesis 2.17) e ir ao mundo e proclamar o evangelho na intenção primeira de colocar a humanidade na intenção original de Deus fazendo com que as culturas de um modo geral, recebam a singularidade da vontade de Deus e sujeite-se em fé a Ele. O grande desafio da atualidade não consiste unicamente na salvação de alma, isto limita a ação de Deus em inúmeras outras áreas. Claro que a salvação é a porta de entrada como início das muitas intenções de Deus. No entanto, precisamos ainda considerar que em outras áreas, onde a forma que as coisas são assumidas dentro da cultura humana, precisam ser colocadas dentro da administração da revelação de Deus, através de homens fiéis a revelação bíblica nesta administração, bem como também a comunidade da fé (cf. Lucas 16:13-15).  O alerta aqui é bem preciso, pois todo povo que Deus chama deve lutar contra a correnteza das riquezas e da multidão que estão indo em sentido contrário.
Reforçando o que venho tecendo, penso que a fé cristã deveria não ser uma fé isolada, visto que o chamado, possui um retorno pela mesma via, sendo que agora como portadora de uma mensagem que deveria ser levada em consideração acima de tudo, ao invés de transportar a cultura da fé a outra cultura nos mesmos moldes. Sendo assim, a fé cristã depois de transformar-se em comunidade, não deveria ter a mesma aparência da cultura do proclamador, mas as dos traços daquilo que é traduzido para ela através das escrituras, incorporando na sua fé cristã.

A QUESTÃO DA PRIVATIZAÇÃO DA FÉ

A ênfase da proclamação do evangelho tem gerado uma ação concreta de salvação de almas. Por isso que temos presenciado um cristianismo alienado da realidade social, política e econômica. A fé deveria não se encerrar no âmbito privado sem nada a dizer para dentro do mundo à sua volta. Essa crença intimista e vertical tem tomado as igrejas que, cada vez mais, se afastam da arena pública nas suas múltiplas expressões culturais, criando uma cultura própria e muitas vezes difícil de ser assumida e interpretada. Isto tem gerado atualmente naquilo que estão chamando hoje, “os sem igrejas”, que não é cabível falar aqui.
É fundamental que, antes de mais nada, o cristão conheça a sua dupla cidadania: Nessas palavras de Jesus em sua oração sacerdotal: “Eles continuam no mundo... Eles não são do mundo...” (cf. João 17:11,16). Nós somos cidadãos dos céus, mas a nossa passagem para lá ainda não chegou, e enquanto estivermos aqui temos muito o que fazer, sem, no entanto, esquecermos que somos de lá. O problema é que além de sermos muito parecidos com o pessoal do lado de cá, muitas vezes nos deixamos influenciar com os erros do mundo, esquecendo do mandato cultural e de expressarmos aquilo que realmente somos e assumirmos do lado de lá sem reprimir e mudar a cultura, mas interpretá-la, encarnando a mensagem escrita, como traduz muito bem (Burns, pg. 17)
“Contextualizar o evangelho não é reescrevê-lo ou moldá-lo as realidades socioculturais da localidade, mas sim, traduzi-lo linguística e culturalmente para um cenário distinto a fim de que toda pessoa compreenda o Cristo histórico e bíblico”
Pensando ainda no resultado final, do que vem depois da proclamação, espera-se que os ouvintes sejam salvos e nascidos de novo, como característica de um autêntico discípulo seguidor de Cristo, comprometido em uma comunidade de fé para que possa crescer no uso dos dons recebidos para ser instrumento transformador em seu contexto cultural. O grande desafio atual é o de evitar a privatização da fé que assim como os judeus, a história está se repetindo com a atitude da igreja sem que haja mudança, mas uma luta como se fosse um mercado de almas.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Conforme exposto acima, compreendemos que Deus deu a revelação, o homem reagiu a esta revelação (fé) e se reuniu criando assim uma cultura cristã.  Percebemos essa cultura como sendo um complexo diverso e ao mesmo tempo unitário que inclui todo comportamento, capacidades e hábitos adquiridos por indivíduos que tomam parte de uma sociedade formalmente definida. Podemos considerar ainda que a realidade da fé de uma comunidade não pode ser confessada fora de uma mediação cultural, porém ao exteriorizar-se a comunidade corre o risco de demonstrar uma fé empobrecida, porque ela mescla-se com a do indivíduo e o resultado é o aparecimento dos dois (Palavra interpretada e o proclamador com sua cultura). Para se enxergar claramente, é preciso conhecer os dois, tanto a revelação escriturística como o portador dela (discernimento).
Em Jesus temos a definição de fé como o exercício das possibilidades ilimitadas. Já no livro de hebreus define como sendo o firme fundamento das coisas que se esperam e a certeza de fatos que se não veem. Instituir significa congelar comportamentos e disciplinar as ações dos indivíduos. Se entendermos que a fé é ilimitada, então ela não é objeto de institucionalização. A fé não expressa a institucionalização, mas a instituição dita as práticas e as ações coletivas, que nem sempre são coerentes com a fé, ou seja, a institucionalização não está na ordem da fé. Na instituição as pessoas não precisam necessariamente de uma revelação para criar uma igreja. Igreja socialmente organizada, no contexto de uma cultura religiosa, não tem como garantir a canonicidade da revelação sem impor ao fato revelado uma perda de qualidade (Souza, p.60).  Concluindo, seja qual for a representação cultural da igreja de Jesus Cristo aqui, ela subtrai enormes quantidade de bens da natureza da revelação de Deus. Como por exemplo o surgimento da Igreja significava a superação do exclusivismo judaico no que se referia à fé em Deus. Com o surgimento da igreja, o judaísmo sofreu com o seu exclusivismo no que se refere a fé em Deus (Apostila p.74). A contextualização do evangelho de Cristo que estamos fazendo é o resultado que estamos vendo em nosso país hoje. O grande desafio consiste na fidelidade as sagradas escrituras e ser um agente proclamador de cumprir a agenda de Deus na missio dei.


BIBLIOGRAFIA

1  - APOSTILA – Contextualização do Evangelho e Cultura – Professor Marcos Orison     Nunes de Almeida – Curso Pós-Graduação Lato Sensu – modalidade EAD. 2015.

2  - BURNS, Ed Barbara Helen. Contextualização Missionária. Editora Vida Nova, 1ª Edição: 2011. P.17
3  -  HORRELL, J.Scott. Ultrapassando Barreiras: Novas opções para a Igreja Brasileira na virada do século XXI. 1ª Ed. São Paulo: Editora Vida Nova, 1994.

4 - BOFF, Leonardo. Espiritualidade um caminho de transformação. 1ª Edição. Editora Sextante. 2001. p.39.

5 - Missão integral, Segundo Congresso Brasileiro de Evangelização, Editora Ultimato, Edição 2004.
6 - David Hesselgrave – Apostila do curso pagina 43 e estudos suplementares 5ª aula interativa slade 4.
8 - Mandato Cultural: Resgatando a Teologia da Criação Para Uma Vivência Pública da Fé -  Rodomar Ricardo Ramlow* Apostila do curso missão integral no contexto urbano da FTSA.

terça-feira, 31 de março de 2015

CAMINHOS PARA UMA ESPIRITUALIDADE TRANSFORMADORA HOJE, NO CAMPO PESSOAL, COMUNITÁRIO E SOCIAL



Por 
Romildo Gurgel


Atualmente, o tema espiritualidade parece ser um tema bastante recorrente em nossa cultura. Ele aparece tanto no âmbito religioso, ambiente este com múltiplas apresentações e percepções bastante variadas, encontrando aí o seu ambiente natural como o campo mais amplo, como também nas mais diversas áreas onde o ser humano se encontra.  Hoje tanto jovens, como adultos, estudiosos filósofos e cientistas, empresários e executivos e aqueles que estão sobre o poder econômico incorporam em suas ações certo tipo de espiritualidade.  Há também aqueles que pensam que espiritualidade tem a sua pauta em retiros de meditação, e aqueles que suas famílias optaram para que seus filhos estudassem em colégios religiosos, ou ainda, os monges em suas enclausuras, passando por experiências isoladas. Poderemos afirmar que todo ser humano tem sede de se encontrar com sigo mesmo e com Deus para achar a respostar do porquê estamos aqui. Não há quem fique de fora dessa realidade pessoal, quer seja ela intencional, percebida ou não.  O apóstolo Paulo escrevendo a Igreja de Éfeso traduz com veracidade declarando dois tipos de pessoas no mundo: as que estão “em Cristo” e as que não estão em Cristo (cf. Efésios 2:1-2). A queda reduziu a humanidade a um estado de espiritualidade independente, onde predomina alienação ao curso do mundo, ao seu príncipe como sendo o da potestade do ar, do espírito que age naqueles que não obedecem ao evangelho de Jesus Cristo, inclinados a vontade da carne e dos pensamentos. A escritura sagrada, classifica esta classe de humanos como uma classe independente (híbrida) – caracterizada como morta nos seus delitos e pecados (v.1) e viva aos que mediante a fé está unida com Cristo, através da Sua graça salvadora (v.5).  
            Sendo assim, todos nós incorporamos quer queiramos ou não algum estado de espiritualidade, consciente ou inconscientemente.  Veja o que (Droogen, p.124) observou sobre essa possibilidade:
 A espiritualidade elabora uma atitude, um comportamento que concretiza simbolicamente com o sagrado. Estas relações com o sagrado têm consequências para as suas relações com o mundo e com os outros homens.

O homem é o reflexo da relação do estar sem ou com Cristo. O estar em Cristo, o Espírito Santo assume a posição inspirando-o para criar esse vínculo relacional e simbólico. Ao criar símbolos, o homem se mostra sujeito ativo ao invés de objeto passivo. Por isso, ele possibilita a abertura do mistério. O invisível fica invisível, misterioso, mas deixa-se conhecer e tornar-se visível.
            O apóstolo Paulo valida esta ideia ao escrever a igreja de Corinto, comunidade fraca em diversas áreas, que como comunidade de Deus seus pecados poderiam ser observados sem muito esforço. Ele ensinou a esta comunidade que ela poderia trazer a imagem do espiritual da mesma forma que estavam trazendo a imagem do terreno, ao escrever:
E, assim como trouxemos a imagem do que é terreno, devemos trazer também a imagem do celestial" (1Coríntios 15:49)
“...todos nós, que com a face descoberta contemplamos a glória do Senhor, segundo a sua imagem estamos sendo transformados com glória cada vez maior, a qual vem do Senhor, que é o Espírito” (2Coríntios 3:18).

Conforme os textos citados acima, a imagem do celestial se torna possível através da educação contemplativa, ocorrendo de uma forma enigmática, como um reflexo de um espelho. Se observarmos nossa imagem frente a um espelho, contemplaremos a nossa aparência, o espelho refletirá a nossa imagem. A imagem é o reflexo de uma realidade visual, sem que ela mesma seja uma realidade, mas apenas uma transmissão visionária da aparência, como se uma pessoa descrevesse você através dos seus próprios olhos. Pela imagem refletida, muitos detalhes poderão ser observados da nossa aparência, é aí que surge uma conversa consigo mesmo e com o próprio coração, porém, o reflexo da amostragem dessa realidade visionária fala que algo pode ser mudado, é a partir daí que a imagem serve de condutor a possíveis transformações e mudanças. O retoque natural é como um reboco aparente de uma maquiagem exterior, que pode ser também uma camuflagem, mas não temos o recurso para as transformações de tal dimensão transformadora. O ensino no Espírito é refletir a glória da imagem de Deus como por um espelho. É um grande milagre! O espelho revela duas imagens a sua e ao mesmo tempo a imago Dei. A imagem de Deus se perdeu no homem, ela foi desfigurada com a queda na transgressão da vontade do pecado. Mas a imagem do homem, frente a imagem de Deus, o Espírito Santo faz com que percebamos essa diferença mostrando-nos a impossibilidade natural de qualquer retoque que possa ficar ao menos parecido com a Sua imagem. Os olhos humanos são abertos e aguçados, para perceberem alguma mudança feita pelo Espírito Santo, quando comparada a imagem do seu próprio ser, perceberá algo parecido, transformação essa que foi incluída no velho reflexo.  A imago Dei no ser humano continua intacta no coração de Deus. Deus se fez carne em Jesus Cristo onde 100% foi homem e Deus. Esta realidade de Deus só é revelada por e través do Espírito Santo que habita em nós, cujo reflexo transmite com precisão, a imagem de Deus, transformando-nos pela imagem contemplada de glória em glória através do espelho.
O ensino espiritual parte da observação desse reflexo obscuro, mas real. Contemplar o nosso rosto, é perceber pela imagem a nossa condição de pecadores, é contemplar a exposição da nossa natureza caída e desfigurada que foi alterada, e a partir daí, se evidencia a norma da lei, que encerra todos debaixo do pecado. O reflexo que é espiritual, poderá servir de um condutor a Cristo, que na relação entre mestre e discípulo poderá transformar o coração e aformosear o rosto.  O ensino de Cristo, é feito por esta pedagogia através do Espírito Santo.
Tiago ao escrever sua epístola explicita melhor essa ideia, associando o retoque do espelho através da prática da palavra para que haja a possibilidade de haver a manifestação da imagem do espiritual. O princípio de encarnar as palavras das escrituras sagradas, significa para nós um reflexo de Deus na nossa face, uma imago Dei, que revela o caráter de Deus e ao mesmo tempo do ser humano transformado através dessa imagem. Tiago escreveu:
"Aquele que ouve a palavra, mas não a põe em prática, é semelhante a um homem que olha a sua face num espelho e, depois de olhar para si mesmo, sai e logo esquece a sua aparência". (Tiago 1:23-24)
A prática da palavra altera toda imagem velha alienadora. Não se pode pensar em espiritualidade sem pensar em transformação, conversão pessoal e serviço. A transformação da vida, a conversão do coração e o serviço ao outro. É característica de alguém que possui um genuíno relacionamento com Deus: a) Andar em novidade de vida, refletida na sua forma de viver os valores do Reino de Deus (2 Co. 5.17); b) Haver conversão genuína do seu coração, que agora coloca todas as suas emoções sob o controle do Espírito de Deus (Fl 4. 4-9); e c) Ter uma vida de serviço e altruísmo ao próximo (Jo. 13.1-17), refletindo de maneira concreta e real o caráter de Cristo.
Frente a um espelho pode acontecer de tudo. Como frisa muito bem (Droogen, p.126):
 “Quanto aos meios de expressão, cada espiritualidade faz uma seleção de um leque de possibilidades. Ela pode usar o corpo ou negá-lo, apelar a toda a personalidade ou só a uma parte. Ela usa todos os cinco sentidos ou só alguns. Ela pode ter um caráter emocional ou, ao contrário, racional. O corpo pode ser usado de muitas maneiras. A espiritualidade pode exigir uma certa atitude do corpo, certos movimentos e gestos”. 
Apoia e muito o que comenta Droogen e que é bem compatível com o que o apóstolo Paulo escreveu a igreja Romana:
(v.12) - “Não reine, portanto, o pecado em vosso corpo mortal, de maneira que obedeçais ás suas paixões;
(v.13) - Nem ofereçais cada um os membros do seu corpo ao pecado como instrumento de iniquidade; mas oferecei-vos a Deus como ressurretos dentre os mortos, e os vossos membros a Deus como instrumento de justiça” (Romanos 6:12-13)
Os membros do nosso corpo podem pela perseverança da tentação, forçar o corpo a ser instrumento do pecado; do mesmo modo, tais membros podem estar disponíveis a Deus para a prática da sua vontade através da Sua Palavra em justiça revelada por meio da fé.
Penso que o tema espiritualidade tem a ver com a pessoa toda e a vida toda. Excluindo uma forma de expressão individualista, pois o homem é um ser social. Acredito que nada disso acontece sem que haja um processo contínuo e radical de discipulado na fé para que isso se suceda, uma vez que é através do ensino que ocorre a transformação do coração. Somos desafiados a incorporar no nosso modus vivendi um discipulado radical, contínuo e transformador.

ESPIRITUALIDADE COMUNITÁRIA E SOCIAL

            Aprecio a clareza elucidativa de Leonardo Boff quando trata do assunto entre o reino de Deus e a comunidade da fé, a Igreja. Ele escreveu:
“O cano da água não é água e o que ilumina é a chama não a vela acesa” (BOOF, p.39).
            Com essas palavras, Boff está afirmando que Jesus não anunciou uma Igreja, ele anunciou o Reino de Deus e a transformação interior (conversão). Posteriormente, no seu lugar, surgiu a Igreja como comunidade de fieis que crêem em Jesus.   Não são poucas as comunidades que infelizmente identificam o Reino de Deus com a Igreja. Este erro tem feito com que a maioria das nossas concentrações de serviços ministeriais fiquem centralizadas no púlpito, no clero, no domingo e no templo. A igreja, ao invés de se apresentar como agência sinalizadora do caminho de salvação, se apresenta como um fim em si mesma.  O que deve contar como relevância e singularidade é a experiência que a comunidade tem com Jesus de Nazaré. Somos herdeiros de Deus não pelo fato de estarmos em uma instituição cristã e seguimos os seus dogmas e preceitos. A verdade disso é que estaremos sujeitos a esta herança se continuamente tentarmos reviver a experiência de Jesus como prática e regra de nossa fé. Desta maneira, estaremos demonstrando que somos filhos e filhas de Deus como quem contempla seu rosto reverentemente enquanto nossos pecados são perdoados.
            Se uma comunidade cristã produz essa forma eclesial, frisa Boof, ela se transforma em caminho espiritual.
(Droogen, citando Hermann Brandt, p.112), definiu como espiritualidade comunitária o exemplo de uma lâmpada em cima de uma mesa: ela ilumina a mesa, mas serve também para ver fenômenos ao redor desta mesa. Nesta mesma linha de raciocínio o apóstolo Paulo escreveu:
“...quem é espiritual discerne todas as coisas e de ninguém é discernido.” (1Co.2:15).
Este pensamento transcreve a influência iluminadora que a espiritualidade conduz, discernindo aquilo que está em volta, bem como ao mesmo tempo, refletindo a imagem da glória de Deus. Na conecção Deus/Homem, a glória de Deus passa pelo ser do homem na vivência das virtudes cristãs (MULLER, p.34)
As palavras de Jesus sobre este assunto são;
“Vocês são a luz do mundo. Não se pode esconder uma cidade construída sobre um monte. E, também, ninguém acende uma candeia e a coloca debaixo de uma vasilha Ao contrário coloca-a no lugar apropriado, assim ilumina a todos os que estão na casa. Assim brilhe a luz de vocês diante dos homens, para que vejam as suas boas obras e glorifiquem ao Pai de vocês, que está nos céus”. (Mateus 5:14-16).
Jesus aqui tenciona em dizer que somos os portadores dessa luz para trazer as cores de Deus ao mundo. Deus não deve ser um segredo para ser ocultado, ele deve ser mostrado publicamente através dos nossos gestos, atitudes e ações. Deus nos fez ser portadores de luz com a finalidade de que essa luz brilhe. Nós não temos luz própria. Sem Cristo somos apagados, aparece só a imagem do terreno, mas, uma vez acesos, não se pode ocultar tal luz da imagem de Deus em nossa união com Jesus Cristo de Nazaré.
Concordo com (RENDERS, p.95), quando diz que o cristianismo é essencialmente uma religião social, e tratar de torna-la uma religião solitária é, na verdade, destruí-la. De maneira nenhuma pode existir sem a sociedade, sem conviver e falar com outros seres humanos. A fé precisa ser operada em amor, existindo uma conecção da comunidade da fé com a que não tem fé. A missão é na fronteira e no contexto do reino de Deus, não é nossa, é de Deus. A oração ensinada por Jesus é chave quando mencionou essas palavras: “teu reino”, “tua vontade”, percebe-se ainda que nada é individualizado quando mencionou ainda estas: “Pai nosso”, “pão nosso”, “nossas dívidas”, “nossos devedores” (cf. Mateus 6:9-13). Sendo assim, penso que deva existir um lado interno, comum para que haja o acontecimento de um autêntico discipulado e, o lado da comunidade em sua volta que não abraçou a fé ainda. Até acontecer uma transformação como diz (Moltmann, p.87):
 “O Espírito de Deus que vivifica não somente liberta a alma de seu amor acidentado, mas também o corpo de suas contorções e intoxicações”.
Finalizando, quero colocar o seguinte: a espiritualidade não é um monopólio das religiões, nem tão pouco um caminho codificado a trilhar. A espiritualidade é uma dimensão de um encontro do homem com Deus. Essa dimensão se revela pelo diálogo consigo mesmo e com o próprio coração. Neste encontro com Deus, nos encontramos e somos aceitos e perdoados, voltamos ao nosso estado de originalidade perdida em Adão e nos encontramos em Deus através do Seu Filho Jesus Cristo “ultimo Adão”, tornando-nos sal e luz do mundo. Acredito que um dos maiores desafios da espiritualidade missional de hoje é fazer com que as comunidades tenham uma experiência real com Deus e não com o fenômeno evangélico, através de suas doutrinas, dogmas, ritos, celebrações que são apenas caminhos institucionais sinalizadores capazes de nos ajudar na espiritualidade, mas que só acontece, a experiência, depois da espiritualidade e não antes, como se é nomeado hoje. A Igreja como comunidade é o resultado de um encontro com Deus. Ela nasceu através do encontro com a verdade, cujo fundamento é a revelação do Cristo filho de Deus (cf. Mateus 16:13-18).

Romildo Fernandes Gurgel Filho

Bibliografia:
1 – BOFF, Leonardo. Espiritualidade um caminho de transformação. 1ª Edição. Editora Sextante. 2001. p.39.
2 – MUELLER, Ênio R. Espelho, Espelho Meu. Reflexões sobre os fundamentos de uma Espiritualidade Evangélica. Texto 1 unidade 1. p.34.
3 -  http://crendoepensando.blogspot.com.br/2007/06/misso-integral-e-espiritualidade.html -  Acessado em 25/03/2015 as 11:36 h.
4 – www.discipulosdecristoprromildo.blogspot.com.br - acessado em 27/03/2015.
5 – DROOGEN, André. Espiritualidade: O problema da definição. Texto 2 da unidade 1. p.112.
6 – BOFF, Leonardo. Espiritualidade um caminho de Transformação. 1ª Edição. Editora Sextante. 2001. Pr.38-39.
7 – RENDERS, Helmut. O Plano para a vida e a Missão e sua Espiritualidade correspondente. Um novo olhar numa questão essencial. Unidade 8 apostila (1). p.95.
8 – MOLTMANN, Jürgen. A Fonte da Vida, O Espírito e a Teologia da Vida. Editora Loyola – p.87.


terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

INTEGRALIDADE DA MISSÃO



Por
Romildo Gurgel
MISSÃO

A missão tem como base toda a escritura sagrada, muito embora, a grande comissão de (Mateus 28:19-20) traduz uma forma direta, como um dos mandatos mais significativos de encarnar a vontade de Deus como instrumento reconciliador.  Em primeiro lugar, trata-se do último apelo convocativo do mestre aos seus discípulos, que podemos afirmar como um mandato de proclamação (kerigma) do evangelho de uma forma pedagógica e contínua até reproduzir discípulos reprodutores. Em segundo lugar, é uma chamada radical a todos os seus eleitos, não especialmente aos oficiais da igreja, mas a todos que são verdadeiramente seus seguidores que agradecem pela salvação seguindo-o participando da Sua missão de uma forma que o glorifique através de palavras, gestos, atitudes e ações.
Mateus relata ainda  em seu evangelho  uma "comissão menor" anterior a esta, menos abrangente, direcionada apenas para os doze, (cf. Mateus 10:5-42), geograficamente apenas para as "ovelhas perdidas da casa de Israel" cuja instrução é bem detalhada abrangendo: o foco da proclamação, o cuidado da aparência simples, o cuidado com o peso da bagagem, não serem exigentes quanto a dieta e a hospedagem, serem cuidadosos quanto a possíveis resistências, etc... é  aqui que o Senhor profere uma de suas mais famosas frases, "Não vim trazer a paz, mas a espada", isto devido ao contraste daquilo que ele encarnava, diferentemente das religiões da sua época.
Quanto aos resultados da proclamação desta comissão menor, são percebidos através das parábolas ensinadas por Jesus e por aquilo que sucedeu na história.  O endurecimento dos corações dos judeus, frente a salvação do seu messias, estava claramente declarado. O reino seria tomado e entregue a outros povos. Como por exemplo a parábola dos dois filhos de (Mateus 21:28-32), onde Jesus teceu a história de um homem que tinha dois filhos, chegando para o primeiro (judeus) pediu que fosse trabalhar na sua vinha, onde este prometeu ir, porém não foi. Por sua vez, chegou também para o segundo (gentios) fez o mesmo pedido, sendo que este respondeu que não queria trabalhar na vinha, mas depois arrependido do que disse, foi trabalhar. Jesus finaliza a parábola com estas palavras:
“Em verdade vos digo que publicanos e meretrizes vos precedem no reino de Deus. Porque João veio a vós outros no caminho da justiça, e não acreditastes nele; ao passo que publicanos e meretrizes creram” (vs.31-32).
Sequencialmente Jesus em outra parábola em (Mateus 21:33-46) parábola dos lavradores maus), precisamente aponta para esta transição de encargo missional. No entanto, esta segunda é bastante crucial em sua ênfase. Ele começa dizendo que um dono de uma casa plantou uma vinha, cercou-a com uma sebe, construiu um lagar, edificou uma torre e arrendou-a a uns lavradores (Judeus) ausentando-se subsequentemente deste país. Chegando ao tempo da colheita enviou alguns servos para receber os frutos do trabalho dos lavradores, sendo seriamente maltratados, espancados um a um levando alguns a falecerem por esses maus tratos. O dono da vinha enviando outros servos (profetas) foram tratados de igual modo.  Comovido pelo ocorrido e pela dureza dos arrendatários, decidiu enviar o seu próprio filho achando que por ser filho, eles iriam respeitá-lo e recebê-lo como deveriam receber. Mas os lavradores vendo-o disseram:  ‒ É o filho, matemo-lo porque esse é o herdeiro e nos apoderemos da herança. Assim procederam.
A conclusão da parábola está nos (vs.42-43) que diz:
“A pedra que os construtores rejeitaram, essa veio a ser a principal pedra angular; isso procede do Senhor, e é maravilhoso aos nossos olhos? Portanto vos digo que o reino de Deus vos será tirado e será entregue a um povo que lhe produza os respectivos frutos”.
Diante dessas passagens e suas incumbências à missão que Deus destinou para nós (gentios), a igreja tem a tarefa de trabalhar nesta lavoura na posição de serva obediente, comprometida em engajar-se trabalhando e ao mesmo tempo colhendo e cuidando dos frutos até que venha a prestação de contas quando o dono da casa pedir que apresente o relatório de sua administração.
A ação missional da igreja é diretamente proporcional a fidelização daquilo que ela proclama. (Barth, p.11) diz que não se pode saber sobre pregação, proclamação (kerigma) sem se tomar conhecimento sobre os sacramentos. Comenta ele que:
“Não há pregação se o sacramento não vier e esclarecer”.
Muito interessante esta forma dele enxergar a proclamação, penso que aqui ele está observando os dois lados de um caminho de mão dupla, conciliando o lado interno da proclamação e o lado externo, proclamação e discipulado.
Não há como pensar sobre missão sem que percebamos que exista uma associação ao cumprimento da proposta em cumpri-la através da igreja. Veja o que (Zwestsch, p.85)   escreveu em sua tese de doutorado sobre esse assunto:
“...Missão é um conceito atrelado à igreja cristã; serve aos seus ministérios ordenados e afins, que desenvolvem programa e criam projetos no intuito não só de manter, mas principalmente de expandir a igreja...”.
Seguindo essa mesma linha, de missão, igreja, não há como pensar sobre missão desassociando-se do exercício pastoral, da igreja e da comunidade em sua volta.
(Barro p.121-123), comentando sobre essa realidade, fala do exercício pastoral que peregrina em duas vertentes missionais que ele denomina como eclesiocentrismo ed intra (pastoral para dentro) e a eclesial ed extra (pastoral para fora). Ele traduz que a pastoral eclesial é aquela que vive para fora dela mesma, valoriza a missão do povo, do sacerdócio universal de todos os crentes, enquanto a pastoral eclesiocêntrica, refere-se apenas as atividades dentro da igreja.
Entendo que a missão da Igreja embarca dois lados, é tráfego de mão dupla, tem como base o vinde e o ide, é tanto interna, percebida como ambiente de reunião e preparação dos santos, como externa, mundo onde as pessoas são escravizadas pelo sistema corrupto pecaminoso. A missão interna é conectiva, agregadora e socializadora do reino, comunhão e o tudo em comum. A missão externa, é proclamação somada à ação de contextualizar a mensagem frente as realidades espirituais e sociais além de suas fronteiras, “se existir”. O apóstolo Paulo nos ajuda muito a entender essa parte escondida, como sendo uma forma intencional de empoderar os santos para a obra do ministério, conforme escreveu a igreja de Éfeso:
  (Efésios 4:11-13) – “Ele mesmo concedeu uns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas, e outros para pastores e mestres, com vistas ao aperfeiçoamento dos santos para o desempenho do seu serviço, para a edificação do corpo de Cristo, até que todos cheguemos à unidade da fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus, à perfeita varonilidade, à medida da estatura da plenitude de Cristo,”
Percebo que neste texto, os dons e ministérios possuem duas pautas, uma interna e outra externa: a) Interna - ‘pastores e mestres’. b)  externa ‘apóstolos, evangelistas e profetas’.
 É aqui do lado da pastoral eclesiocêntrica que acontece o diálogo da igreja consigo mesma, frente as realidades do contraste da vida comunitária que estão em volta dela. Como disse (Berkhof, citado por Devid Bosch, p.463):
“A igreja só pode ser missionária se seu estar-no-mundo é, concomitantemente, um ser-diferente-do-mundo”.
É aqui que aparece o caráter diferente transformador que contrasta com as comunidades não transformadas. É aqui em que há o encontro da fé onde não há sinalização de fé explícita e é nesse encontro que a missão acontece. É aqui que entra também a evidência dos dons e ministérios que foram distribuídos aos santos e a capacitação e o encorajamento missional floresce. É aqui onde o discipulado ganha a sua força e o treinamento se dá como aconteceu com o treinamento dado por Jesus aos seus discípulos, mesmo de uma forma desinstalada, artesanal e isolada (dentro).  É aqui que os corações são confrontados e encorajados a saírem da sua zona de conforto e perceberem que todos que são verdadeiros discípulos, são convocados a serem empoderados, através do (discipulado) do lado de dentro e frutificar para o lado de fora.
  Entendo ainda que assim como a queda veio através do desejo humano de comer o fruto proibido, a restauração do homem advém de uma contemplação do desejo de comer do fruto produzido por Deus. Porque a missão nasce pela proposta que contrasta, reino de Deus e mundo.
 Para efeito de ilustração, perceba na (figura 1) abaixo que a raiz de uma grande árvore é o alicerce de sustentação de toda arvore. Quanto mais a raiz se expandir e se aprofundar, maior será a probabilidade dela ser frondosa e cheia de frutos. Todo processo multiplicador sai do lado interno para o externo. Em outras palavras nossa missão é dá tempero a terra e iluminar o mundo (cf. Mateus 5:13-14).


                                                                                    Externo
                                                                                  (ad extra)
                                                                                   (Mt.5:13-16)









            (ad intra)
                                    (Efésios 4;11-13)            (figura 1)




A grande comissão tem como base a ação trinitária, no sentido de colocar todas as pessoas no Pai, no Filho e no Espírito Santo. A trindade incuba-se na ação transformadora do aumento e crescimento e desenvolvimento da lavoura, através da ação da igreja na proclamação pedagógica do evangelho. A abrangência do campo agora é bem maior: É o mundo todo, envolve todas as raças, tribos e nações em toda situação social em que as pessoas se encontram, devemos confirmar nossa obediência proclamando a redenção do Filho como herdeiro da lavoura e da casa.
Na grande comissão, Jesus não deu uma grande sugestão, mas uma grande “missão”, “remeter”, “enviar” que só pode ser obedecida desinstaladamente, informalmente, relacionalmente e permanentemente. Fomos chamados a “ir” e não somente a “vir” (Mateus 11:28).  Como sita (David Bosh, p.462 1952):
“A igreja é, sempre e ao mesmo tempo, chamada para fora do mundo e enviada para dentro do mundo”.
 Pelo menos duas vezes Jesus insiste enfatizar essa verdade: (João 20:21) - Jesus lhes disse mais uma vez: “A paz seja convosco! Assim como o Pai me enviou, Eu também vos envio.”
Deus nos chama para fora (ekkesia) e é Aquele que nos remete de volta para o mundo em missão. Somos desafiados a ver em cada passo da caminhada uma oportunidade para partilhar do amor de Deus revelada em Cristo. A melhor maneira de participar dessa vida é empregando-a em algo que tenha implicações eternas.
Todo discípulo é convocado por Jesus a erguer seus olhos para além de suas próprias fronteiras, compreendendo que o projeto divino de transformação inclui nossa participação e empenho, na abrangência não só comunitária, mas também em todas “as tribos, línguas, povos e nações” (Apocalipse 5:9). O Cristo que abraçou o mundo pelo seu amor (João 3:16), nos ordena a fazer o mesmo de maneira sábia, engajadora e responsável. Missão não pode ser divorciada da vida e do exemplo. O evangelho que pregamos deve ser encarnacional.  Jesus criticou duramente os fariseus exatamente por isso quando disse: “Portanto, tudo o que vos disserem, isso fazei e observai; mas não façais conforme as suas obras; porque dizem e não praticam” (Mateus 23:3).

INTEGRAL

O significado da palavra integral possui algumas definições. (Barro, p.2 unidade 2) diz:
“É o que compreende todos os aspectos ou todas as partes necessárias para estar completo: uma educação integral, uma reforma integral”.
Como a palavra integral tem a intenção de não deixar absolutamente nada de fora, continua ainda (Barro, p.2) definindo mostrando a dimensão dessa palavra:
“Que com outros elementos forma uma unidade ou conjunto: os órgãos integrais do corpo humano”.
É a partir dessa ideia que surge a missão integral, ou seja, a missão de Deus é integral, incorpora todas as coisas criadas visíveis e não visíveis.
A missão integral foi gerada no seio da fraternidade Teológica Latino-Americana a pelo menos pouco mais de 20 anos. Desde então a sua intenção tem sido colocar a Igreja dentro de um marco teológico mais bíblico do que o tradicional movimento missionário moderno (Padilla, p.13-14).
Escrevendo sobre a amplitude da missão integral aplicada ao reino de Deus, (Cunha, p.24-29) tece o seguinte comentário:
“Quando Deus criou todas as coisas, ele tinha propósito para todas as áreas da vida do homem e para a criação como um todo”.
Seguindo nesta linha, ele declara que Deus demonstra sua intenção de ter comunhão com o homem, de promover relacionamento entre as pessoas, de vê-lo se relacionando de forma correta com a natureza e de ter tudo caminhando dentro da ordem da própria criação.  Sua abordagem consiste em quatro aspectos das intenções de Deus na sua criação, envolvendo a área espiritual, relacional, físico e sabedoria. Tanto a queda como na restauração pela redenção de Jesus Cristo, essas quatro áreas da vida humana são integralizadas e recuperadas na restauração.
O apóstolo Paulo ajuda a essa ideia dizendo:
“... havendo por ele feito a paz pelo sangue da sua cruz, por meio dele reconciliasse consigo todas as coisas, tanto as que estão na terra, como as que estão nos céus” (Colossenses 1:20).
(Matthew Henry, Bíblia de estudo.p.1953), comentando este versículo diz:
“Deus por Cristo, reconciliou todas as coisas. Ele é o mediador da reconciliação que proporciona a paz e o perdão aos pecadores, que os traz a um estado de amizade e favor no presente, e levará todas as criaturas a uma gloriosa e bendita sociedade no final”.
(BARRO,  p.3 unidades 2), dá a sua definição de missão integral:
“Missão integral é a proclamação e manifestação (demonstração) do Evangelho do Reino de Deus em todas as dimensões da vida para restaurar (transformar) os relacionamentos corrompidos pelo pecado das pessoas com Deus, com elas mesmas, com seu meio ambiente e suas situações e realidades visando a glória de Deus”
            Sendo assim, nutrido com esse embasamento, acho suficiente em dizer que a integralidade da missão envolve toda a necessidade que os homens passaram a ter depois de sua queda, desde o afastamento de Deus, os sofrimentos em busca de seu próprio alimento, suas condições de abrigo, saúde, física, mental e espiritual e a recuperação integral ao estado de originalidade na criação tendo a igreja de Jesus Cristo como instrumento do cumprimento da missão integral na (missio Dei).


BIBLIOGRAFIA

1 BARRO, H. Jorge. Pastores Livres. 1ª Edição. Descoberta Editora Ltda. Londrina/PR. maio/2013. P.121-123.
2 – ZWETSCH, Roberto E. Missão como com-paixão, Por uma teologia da missão em perspectiva latino-americana. Editora Sonodal. 2008 p.85.
3.http://pt.wikipedia.org/wiki/Grande_Comiss%C3%A3o#Relatos_no_Novo_Testamento; Acessado em 17/11/2014.
4-http://hernandesdiaslopes.com.br/2012/04/a-grande-comissao-uma-missao-inacabada/#.UmaGTPk05_k; Acessado em 18/11/2014.
5-http://www.allaboutjesuschrist.org/portuguese/a-grandecomissao.htm#sthash.FrbHHPiV.dpuf. Acessado em 21/11/2014
6 – PADILLA, René C. O que é Missão Integral. 1ª Edição.Editora. Ultimato. Viçosa/MG. setembro 2009 p. 13,14.
7 – BARTH, Karl. A Proclamação do Evangelho. Editora Novo Século. p.11
8 – Bosh J. David . Missão Transformadora. Editora Sinodal. São Leopoldo/RS. 1998. p.446
9 – Bosh J. David . Missão Transformadora. Editora Sinodal. São Leopoldo/RS. 1998.p.449-450.
10 - Bosh J. David . Missão Transformadora. Editora Sinodal. São Leopoldo/RS. 1998.p.463.
11 – BÍBLIA. Bíblia Vida Nova- Editora Vida.
12 – Chave Bíblica – CBB.
13 – BÍBLIA. Bíblia de Estudo Matthew Henry. Edição Almeida Revista e Corrigida.1ª Edição. Rio de Janeiro/RJ:  Editora Central Gospel Ltda., 2014  P.1953.
14 – BARRO, J. H. Apostila do Curso Missão Integral. EAD-FTSA Pós-graudação.
15 – CUNHA. Maurício J.S; WOOD, Beth A. O reino entre nós, Transformação de Comunidades pelo Evangelho Integral. 3ª  Edição:  Viçosa/MG : Editora Ultimato. Abril 2009 . p. 24-29.



quinta-feira, 26 de junho de 2014

FRUTO, ORAÇÃO E BÊNÇÃO


Por  
Romildo Gurgel


FRUTO ESTÁ ASSOCIADO DIRETAMENTE A ORAÇÃO, bem como oração anuncia a qualidade relacional do discípulo com algo ainda não estabelecido completamente. Sendo assim, a oração nasce pela necessidade de se concretizar algo já iniciado no interior do discípulos e que já começou a frutificar mas não ainda totalmente.
“...Eu vos escolhi para irem e darem fruto, fruto que permaneça, a fim de que o Pai lhes conceda o que pedirem em meu nome” (João 15:16b)
A origem da frutificação do discípulo vem de Deus, porque fomos escolhidos por ele para irmos, se não formos, a frutificação não acontecerá.  Deus não nega nada aos discípulos que estão fazendo a sua vontade na medida que estão indo. A resposta certa para Deus responder a oração consiste em frutificar na sua vontade, ir, até se tornar realidade completa experimental.
A finalidade do fruto permanente é que Deus pretende nos dar aquilo que viermos a lhes pedir. Na obediência de “irmos”, tudo ainda não é definitivo, devido a sua vulnerabilidade do enfrentamento dos processos de continuidade até definitivamente se transformar em fruto permanente.
Se estivermos em Cristo e suas palavras estiverem em nós, poderemos pedir estando certos de que nossas petições serão respondidas positivamente. Primeiro a sua palavra tem que residir em nossa consciência, onde frutificaremos na obediência. Consequentemente, Deus não irá ignorar nossas orações, pois guardamos sua palavra frutificando nelas enquanto Deus ouve nossas petições. A palavra, residindo em nossos corações, fará com que nada pratiquemos e peçamos que seja inadequado a sua palavra, por isso que seremos ouvidos por Ele. Sendo assim, saberemos o que iremos pedir, visto que a petição estará de acordo com o fruto da vida do discípulo. Por isso que não deixamos de ser ouvidos. As promessas estão prontas para serem transformadas em oração. Devemos não só conhece-las, mas torna-las nosso objeto de oração na medida que caminhamos obedientemente.
O início da oração do discípulo começa na prática das escrituras até a frutificação. A partir daí, a oração continua na medida que o grau da necessidade da frutificação dificulte na sua concretização. Deus vela pela sua palavra em cumpri-la. Ele a designou para que seja estabelecida sua vontade na terra como é estabelecida no céu.
Na medida que se pratica a palavra de Deus, se colhem frutos dela. Em determinado local, os frutos são colhidos facilmente, já em outros, é preciso orar para que isso aconteça e se torne algo permanente.  O apóstolo Paulo testemunha dessa experiência com a igreja romana quando escreveu-lhe dizendo: “Quero que vocês saibam, irmãos, que muitas vezes planejei visita-los, mas fui impedido até agora. Meu propósito é colher algum fruto entre vocês, assim como tenho colhido entre os demais gentios” (cf. Romanos 1:13).
Fruto se apresenta na manifestação da justiça. Qualquer obstáculo que impeça tal manifestação, o coração do discípulo perceberá isso. É aqui que a oração ganha sua força, até a concretização e ações de graças.  Sendo assim, serviços, orações é para o louvor de sua graça.  “Cheios do fruto da justiça, fruto que vem por meio de Jesus Cristo, para glória e louvor de Deus” (Filipenses.1:11).
Louvor e gratidão é fruto de lábios de uma boa confissão. “Por meio de Jesus, portanto, ofereçamos continuamente a Deus um sacrifício de louvor, que é fruto de lábios que confessam o seu nome” (hb.13:15).
Enquanto a injustiça impera, somos silenciados, entramos em processo de oração, buscando a intervenção divina, até que haja uma transformação permanente. Depois é só louvor e ações de graças, e a experiência de todo processo.

Amém,



terça-feira, 10 de junho de 2014

PASTOREANDO O REBANHO DE DEUS - 1 PEDRO 5:2-4



Por Marcos Aurélio dos Santos

Durante minha caminhada cristã pude observar o comportamento de alguns pastores quanto ao seu compromisso de pastorear o rebanho que nos foi confiado. Alguns deixaram para mim lições valiosas, especialmente como exemplo de vida, pastores imitadores de Deus, dignos de serem imitados, modelos do rebanho. Porém outros lamentavelmente nos trouxeram nada mais do que profunda decepção, no qual estes, eu não recomendaria ninguém a imitar. Essa experiência me levou a refletir nas escrituras, como se deve pastorear o rebanho de Deus. Suas implicações, desafios, como cuidar de ovelhas à maneira de Deus. O texto que nos chama para reflexão é 1 Pe.5.2-4 que diz: Pastoreai o rebanho de Deus que há entre vós , não por constrangimento, mas espontaneamente, como Deus quer, nem por sórdida ganância , mas de boa vontade nem como dominadores dos que vos foram confiados, antes, tornando-vos modelos do rebanho. Ora, logo que o supremo pastor se manifestar, recebereis a inacessível coroa de glória.

        Pedro exorta os pastores a cuidar das ovelhas de Jesus, não por constrangimento, mas de boa vontade. Pastores que vivem queixando-se de seu ministério, que vêem no pastorado um fardo pesado, difícil de carregar, onde não há alegria no que faz, não estão aptos para pastorear o rebanho de Cristo, pois a chamada é para o serviço espontâneo, com liberdade, sentindo imenso prazer em pastorear o rebanho. Pastorear espontaneamente é amar o que faz, é amar a si mesmo, é a mar a Deus e seu rebanho, ensinando-as a caminhar pelas veredas da justiça, encaminhá-las pelo caminho da graça, levá-la nos ombros e cuidar de suas feridas. Dar para elas alimento saudável, nutrição espiritual, palavra de Deus. Ajudá-las em suas necessidades materiais, pois pastores que dizem ter fé mas não faz obras, sua fé é morta (Tg.2.17). Pastorear espontaneamente é ter profundo sentimento de compaixão, misericórdia, é deixar a graça transbordar. Devemos ser pastores cheios do Espírito, com desejo de servir.

       Pedro continua advertindo os lideres daquela comunidade cristã a exercer o pastorado não motivado pelo dinheiro, mas, de boa vontade. A advertência é para fugir da avareza 2 Pe.2.3 . Devem vigiar para que não vejam no rebanho uma fonte de lucro, uma maneira de se dar bem na vida. O mercenário não sente prazer em cuidar do rebanho. Em vez de cuidar, proteger, alimentar, sua intenção é tirar a lã, explorar, negociá-la por bom preço. Disse Jesus: O mercenário que não é pastor, a quem não pertence às ovelhas, vê vir o lobo, abandona as ovelhas e foge; então, o lobo as arrebata e as dispersa. O mercenário foge porque é mercenário e não tem cuidado com as ovelhas. (Jo.10.12-13).

      Certa vez um colega pastor me contou um fato que tem muito a ver com o texto acima citado. Um ”Irmão pastor” convidou-lhe para conhecer uma cidade onde se cogitava a possibilidade de implantar uma nova frente missionária. O pastor foi com boas intenções. Na ocasião negociava-se a compra de um terreno na cidade. Mas para surpresa e decepção do pastor, o “irmão pastor” propôs negociar também os irmãos juntamente com o terreno. Sua intenção era vender o pacote completo. Sua visão pastoral era puramente mercantilista. Para ele o que importava era dinheiro no bolso.

      Histórias como estas e outras bem parecidas, não são difíceis de encontrar em nosso meio. É o pastor que antes de ser contratado, sua primeira atitud  é verificar o rendimento mensal da igreja, se não tiver boa renda, ele não aceita a proposta, espera outra melhor. É o que não pensa duas vezes quando recebe uma proposta financeira melhor do que a que ele ganha e isso sem pensar nas consequências futuras quanto a igreja que pastoreia. É o que vende as ovelhas em troca de benefícios em período eleitoral. É o que centraliza, controla tudo que está ligado a área financeira da igreja. É lamentável.
       Nossa chamada é para servir, cuidar, e isso de boa vontade, pensando no rebanho e no seu crescimento e não no que ele pode render. Exercer a disciplina do contentamento, trilhar no caminho da piedade. Pastorear o rebanho de Deus é pastorear consciente de que as ovelhas nos foram confiadas, que na vinda do senhor haverá prestação de contas. Ai dos pastores que destroem e dispersam as ovelhas do meu pasto! diz o Senhor (Jr.23.1).
        A advertência agora é para que os pastores não sejam dominadores das ovelhas que Deus os confiou. Não devem dominar porque o rebanho não lhe pertence. O sangue derramado na cruz não foi o do pastor humano, mas do sumo pastor que se manifestará em glória (2 Pe.5.4).
      Podemos observar aqui algumas características de pastores dominadores. 1) Coloca-se sempre numa posição acima do rebanho, não aceita estar em pé de igualdade com as ovelhas. 2) Não admite ser questionado, julga-se dono da verdade. 3) Usa da psicologia para causar medo nas ovelhas, tira a liberdade de expressão do rebanho. 4)  Detém o poder a qualquer custo.5) Fica doente quando lhe é retirado o poder. 6) É centralizador em extremo.
       Podemos citar outras características aqui, mas creio que estas já definem por demais os dominadores de rebanho. Digo que pastorear é servir, pois foi este o exemplo de Cristo em seu estilo de pastorear. Se alguém pensa em pastorear, mas não se dispõe a servir aos irmãos, não está apto para cuidar de gente.
     Um versículo que nos chama atenção no texto é 1 Pe 5.1. Reconhecendo suas falhas e caminhando nos passos da maturidade, Pedro ao escrever esta carta demonstra um profundo espírito de humildade, pois sendo apóstolo se considera como um dos presbíteros desmentindo toda e qualquer honra que lhe foi atribuída de primeiro papa.  Quantos de nós pastores estamos dispostos a ser o menor na congregação que pastoreamos?
       Por fim, a advertência é para sermos modelos do rebanho. Então, é imprescindível que as ovelhas vejam em nós o exemplo de Cristo, que através de um relacionamento entre ovelha e pastor possa haver necessidade de imitar. Como diz Paulo: Sedes meus imitadores, como também eu sou de Cristo. Nisto o pastor deve se esforçar para viver um estilo de vida à maneira de Jesus, produzindo frutos, servindo, amando, para que possa receber a coroa de glória (1 Pe 5.4). Mais uma vez digo, pastorear é servir, pois Cristo, o Sumo  Pastor disse dele mesmo: Tal como o filho do homem, que não veio para ser servido mas para servir e dar a vida em resgate de muitos (Mt 20.28).